PROSTITUIÇÃO*
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| por
Fernanda Elias |
| feiranda@bol.com.br |
Recentemente,
um deputado escreveu um projeto no qual defende a prostituição como uma profissão
oficial, ou seja, que deve proporcionar os mesmos direitos de segurança, previdência
e respeito que as demais. Tal iniciativa causou, no mínimo, certo desconforto
nos setores mais moralistas da sociedade.
Isso
é compreensível (mas injustificável), tendo-se em vista que até hoje persiste
a idéia da "vida fácil" que leva uma meretriz. Claro que esse pensamento busca
explicações confortáveis: as mulheres fazem isso porque gostam e se gostam de
seu trabalho, ele é fácil - talvez isso fosse menos mentiroso se a primeira tese
já não estivesse equivocada.
O
quadro recém citado, aliado à ideologia cristã de moralidade provoca uma situação
extremamente cruel. Essas trabalhadoras são encaradas como pecadoras, que insistem
no "pecado" porque desejam assim. Ora, quantas pesquisas serão necessárias para
se provar que a maioria esmagadora dessas mulheres preferiria não ser alvo de
piadas, humilhações e agressões físicas? Quantas falsidades não serão contadas
até que a sociedade assuma sua responsabilidade por essa situação, entendendo
que muitas delas não vêem outra opção? E até quando sexo será pecado no inconsciente
e tabu no cotidiano da população?
Parece
fundamental para o sistema econômico-social que exista um padrão de comportamento
reprodutivo e de herança. Especialmente com a ascensão burguesa, a idéia de um
homem que continuará o comércio da família, aumentando sua poupança, passa a ser
cultivada. O próprio Calvino explica que aquele escolhido por Deus será bem-sucedido
e, nesse caso, tem a obrigação de manter sua fortuna com os entes próximos e de
ajuda-los para que eles também enriqueçam. Assim, a fidelidade feminina é indispensável,
para que o dinheiro familiar não vá parar em mãos 'desmerecedoras' (de outra família).
No entanto a masculina não, uma vez que os homens não necessariamente assumem
seus filhos e não podem ser responsabilizados por eles, a não ser que sejam pegos
em flagrante. Já a mulher engravida, podendo apenas tentar o aborto.
"Diz-se
que no início do século XVII ainda vigorava uma certa franqueza. As práticas não
procuravam os segredos. Eram frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade,
da decência , se comparados com os do século XIX. (...) A sexualidade é, então,
cuidadosamente encerrada. A família conjugal a confisca. O casal, legítimo e procriador,
dita a lei." (Foucault, 1988, p. 9)
Porém, ao passo em que é instaurada a fidelidade conjugal, o sexo após o casamento
e de preferência para a procriação, percebe-se o problema: não é auto-sustentável.
Então, o que fazer com essa multidão de indivíduos sexualmente mal-resolvidos?
"Porque não
tem função procriadora, a prostituição (como as relações sexuais fora do casamento)
é socialmente condenada. Ao mesmo tempo, porém, é tolerada e até mesmo estimulada,
nas sociedades que defendem a virgindade das meninas púberes e solteiras (...)
resolve as frustrações sexuais dos jovens solteiros e dos homens que se consideram
mal casados para jamais confundirem suas honestas esposas com amantes desavergonhadas."
CHAUI (1991, p. 79-80).
Daí
se entende porque o mesmo homem que discrimina as prostitutas leva seu filho para
que ele perca a virgindade e "se torne macho". Daí se entende porque tantos homens
casados saem pela noite em busca de garotos. Daí se entende porque tantas são
as mulheres espancadas e ameaçadas. Entende-se a razão de elas se depararem com
os maiores podres da sociedade patriarcal e burguesa em que nos inserimos. A
prostituição é a válvula de escape de grande parte das nossas repressões sexuais.
Richards
citando Chobham: "A prostituta na sociedade é como o esgoto no palácio. Se
se retirar o esgoto, o palácio inteiro será contaminado" (1990, p. 123)
Isso
significa que a prostituição, com as características atuais, é, portanto, a mantenedora
da ordem burguesa hipócrita. Talvez seja essa a razão da insônia de alguns indivíduos
diante do projeto do deputado: os prostíbulos deixarão de ser ou serão muito menos
áreas de livre comportamento (leia-se: comportamento violento e, aos olhos da
sociedade, imoral, doentio, satânico). Caso o projeto seja aprovado, qual será
a próxima válvula de escape? É tenebroso, mas a maioria das crianças mal consegue
se defender...
CHAUI,
M. Repressão sexual - essa nossa (des)conhecida. São Paulo: Brasiliense, 1991.
231 p.
FOUCAULT,
M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal,
1988. 152 p. RICHARDS, J. Prostituição. In: Sexo, Desvio e Danação - as minorias
na idade média. Rio de Janeiro. Jorge Zahar editora, 1990. p. 121
[*pretendeu-se
focalizar as mulheres que se prostituem, apesar de o número de homens parecer
ser bastante significativo].
[**escrito
com dados de estudo dos professores da UFPA].