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Ecologia e Autogestão

 

 

A DESVALORIZAÇÃO DO “OUTRO”
por Giuliano Saneh
giuliano@observatoriosocial.org.br

 

É sempre possível unir um número considerável de pessoas no amor, desde que restem outras pessoas para receberem manifestações de sua agressividade.
FREUD

“Não julgue com seus olhos”. Esta frase, dita na forma de um pedido por um jovem guia afegão a um repórter brasileiro que observava negativamente uma mulher afegã usando sua burka , expõe, de maneira simples, um dos mais formidáveis obstáculos da humanidade: a intolerância. Sempre que nos colocamos diante do diferente, do “outro”, nossa reação mais comum é exatamente julgar com nossos olhos, com nossos valores, com nossas crenças e com nossas leis. Tratar de um assunto como a intolerância é impossível sem fazer um juízo de valor.

Relacionadas diretamente com conceitos ligados ao bem e ao mal, a intolerância e a tolerância fazem parte do pensamento humano, que projeta seus conceitos (verdadeiros, falsos, completos, incompletos) em todas as áreas de atuação do homem. O guia afegão pede que o repórter ocidental aceite o costume local, que obriga as mulheres a usar pesadas vestes cobrindo todo o corpo, o rosto inclusive. Mas como não pensar no desconforto, na opressão sofrida por aquela mulher afegã?
A intolerância, descrita da maneira mais geral possível, é a desvalorização do outro. Desvalorizamos o outro quando desprezamos – não importa o grau do desprezo – seus costumes, seu modo de vestir, a cor de sua pele, o desenho tatuado em sua pele, o carro que dirige e o que não dirige, a língua que fala, as línguas que não fala, o sotaque que teima em aparecer em cada frase, o deus para quem dirige sua fé ou quando não dirige a fé pra deus algum (ou ainda para vários), o time de preferência, o esporte que pratica ou se não pratica esporte nenhum, o jeito que usa o relógio no pulso, o piercing posto na língua ou no nariz. Enfim, de uma maneira ou de outra, em algum momento, todos somos intolerantes.


Lutero foi quem primeiro traduziu para o alemão o termo tolerantia, tirado de Santo Agostinho, no sentido de “paciência” caridosa, de sofrimento ditado pelo amor divino (caritas). O termo paciência envolve a noção de tempo. Temos paciência por determinado período. A paciência não se assemelha a virtudes atemporais como o amor e a bondade, ela acaba. Portanto, quando tratamos de intolerância, tolerar não corresponde exatamente ao seu oposto. Para alguns pensadores, como Humberto Eco, a intolerância é natural no ser humano. Os valores que normalmente relacionamos com tolerância, como bondade e respeito, são adquiridos conforme vivemos em sociedade.
A desvalorização do “outro”, faz parte da história humana. De toda a História humana. A intolerância está longe de poder ser enquadrada como uma exceção, uma patologia. Santo Agostinho diz que a alma individual é habitada por anjos e demônios – as duas faces da mesma moeda, distintas mas inseparáveis no mesmo corpo. A idéia de uma sociedade onde o bem e o mal são claramente separados faz parte da mesma ilusão que prevê um caminho histórico da humanidade partindo do barbarismo (o mal) à civilização (o bem).


Ressaltar a “normalidade” da intolerância no comportamento histórico humano não significa, de modo algum, justificar os seus exemplos. Ao contrário, queremos tirar destes exemplos o caráter patológico e mostrar que são praticados, testemunhados ou têm como vítimas não anjos e demônios – características tão distantes de nós – mas pessoas comuns. A idéia confortável de analisar um exemplo clássico de barbárie, o holocausto nazista, como obra de doentes num período insano da História não resiste a uma análise mais apurada. Como lembra o sociólogo Zygmunt Bauman:


O Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura. (BAUMAN, 1998, p.12)

A intolerância não é apenas um fenômeno associada diretamente a ideologias do “terror”, como normalmente se faz com o uso de expressões como “fanáticos”, “terroristas” e outras, simplesmente “porque ela não é o próprio de um sistema, de uma religião, de uma ideologia, mas é o próprio do homem. Está em cada um de nós, está no cerne de cada sociedade.” (BARRET-DUCROCQ, 2000, p.263, grifo nosso). A desvinculação entre intolerância e doutrinas fascistas, integralistas ou totalitárias, é interessante porque mostra o aspecto mais profundo da intolerância enraizada em cada indivíduo e, encontra nestas formas de governo, todas as possibilidades políticas de deixarem sua prisão individual e se coletivizar.


Para Leila Shahid, delegada geral da Palestina na França
A intolerância vem da ignorância, da ignorância quer vem do medo, o medo que vem da cegueira. A tolerância vem do conhecimento; o conhecimento leva à aceitação do outro. A intolerância vem de uma forma da apropriação total da verdade. A tolerância vem da aceitação do erro e da legitimação do erro. (SHAHID apud BARRET-DUCROCQ, 2000, p.163)

Se a tolerância vem do conhecimento, da razão, como explicar a parceria contínua entre os intelectuais e a intolerância? O nazismo, que nasceu e se desenvolveu no centro de um dos maiores pólos culturais da humanidade, contou com o apoio de grandes expoentes do conhecimento da época. Não é só o exemplo alemão. O aumento significativo na alfabetização da população mundial no último século, o crescimento da formação universitária, da pós-graduação, enfim, do ensino, nada disso resultou num perceptível aumento da tolerância global, muito ao contrário.


Para a filósofa política alemã Hannah Arendt a morte de aproximadamente seis milhões de judeus pelos alemães na Segunda Guerra é o exemplo definitivo da capacidade humana de fazer o mal. Quando foi a Jerusalém acompanhar, como enviada da revista New Yorker, o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, estava convencida de encontrar no réu a personificação do mal. O homem responsável pela coordenação dos campos de concentração, Eichmann, só poderia ser uma espécie de demônio. No entanto, ao encontrar Adolf Eichmann, em 1961, e acompanhar o desenrolar do seu julgamento, Arendt descreve o até então homem-demônio como uma pessoa comum, um burocrata cuja característica mais marcante é um “vazio de pensamento”.


O demônio por Arendt procurado parece nunca ter existido. Eichmann, um dos responsáveis pela morte de seis milhões de pessoas, não era um ideólogo nazista particularmente brilhante, nem mesmo um fanático político, era apenas uma pessoa comum, inclusive, de acordo com os depoimentos em seu julgamento, um zeloso pai de família. Hannah Arendt deparava-se com a contradição: o seu exemplo de mal radical, os campos de concentração, poderiam ter sido criados e controlados por pessoas comuns? Onde estavam os demônios?

II

Intolerância é a convicção de que os outros não pensam, não sentem, não reagem como nós (qualquer que seja esse “nós”).
HÉRITIER


“Não julgue com seus olhos.” A frase sintetiza de certa forma a complexidade da relação com o “outro”. Um relacionamento necessário e, no entanto, uma dificuldade permanente. A convivência do “eu” com o “outro” pode resultar – e resulta normalmente – em pequenas brigas, bate-bocas e discussões comuns do cotidiano. A tensão entre subjetividade e a necessidade de convivência pode também resultar nos exemplos mais dramáticos de barbárie de nossa história.


Uma idéia ou pensamento sedimentado no senso comum sempre nos pareceu extremamente míope, o discurso tão comum de “civilização” em oposição à “barbárie”, que adota conceitos históricos para traçar uma linearidade darwinista que caminha do mundo primitivo (bárbaro) chegando à moderna civilização (a ocidental, acima do equador), tendo como ponto final uma sociedade evoluída – habitada por seres inteligentes, eficientes e incapazes de atos violentos. No entanto, o último século foi o de Dresden, Hiroxima, Nagasaki e Ruanda; da “Solução Final”, e da limpeza étnica. O progresso tecnológico que inspirou o otimismo dos séculos XIX e XX também representou a multiplicação dos efeitos da maldade. Foi o século do progresso tecnológico, mas foi também o século da intolerância.


O século que começa tem seu início marcado pela data 11 de setembro de 2001 e, novamente, a intolerância parece ser sua principal parceira. Se o holocausto do povo judeu foi exemplo da intolerância humana no passado, os novos tempos têm na violência dos judeus israelenses contra os palestinos a comprovação de que nosso “rumo evolutivo” parece circular em torno de barbáries. Emblematicamente, a imagem de palestinos exibindo tatuagens numeradas em seus braços, feitas para “controle de prisioneiros” pelo exército de Israel, é significativa da falência da esperança de um verdadeiro aprendizado histórico que nos livre dos erros cometidos.


Também emblemático, o ataque da maior força militar do planeta, com sua incomparável tecnologia de guerra, contra uma nação semidestruída por décadas de guerras e guerrilhas, presa a um tempo descrito como próximo da Idade Média (neste caso, o Afeganistão), revela o enorme poder do pensamento maniqueísta na implementação da intolerância. A “batalha do bem contra o mal”, ou o brado “você está com nós ou contra nós” reforçam a presença de características que possibilitaram as destruições passadas e que agora se apresentam como perspectiva do nosso futuro.


O “vazio de pensamento” – a irreflexão, a mentalidade hierarquizada, o individualismo egoísta com sua competitividade degenerada, para autores como Arendt e Theodor Adorno formam a essência da personalidade autoritária e que, coletivamente, possibilitaram a ascensão do totalitarismo. Mas tais características não são exclusivas a determinado sistema político, a uma ideologia. São parte do pensamento individual e encontram cada vez mais espaço na civilizada modernidade contemporânea. São características pessoais que não só são encontradas atualmente, como talvez com muito mais força.


A irreflexão, o “vazio de pensamento” como chamou Hannah Arendt em seu diagnóstico de Eichmann, condena nossa capacidade de comparação, permitindo às ideologias transmitir seu discurso único como lei universal. A impossibilidade de encarar a complexidade faz com que a mente irreflexiva procure idéias claras, pensamentos prontos. Frases feitas e clichês são sua forma de comunicação, a maneira de conseguir se expressar ao mundo exterior e a forma que encontra para falar a si mesmo dando motivação e ânimo em situações difíceis . Arendt, em Origens do Totalitarismo, descreve a “maldade” totalitária comparando-a ao “mal radical” – a perversão do coração – de Kant. Ao acompanhar o julgamento de Eichmann, a autora parece reavaliar sua posição. O subtítulo A Banalidade do Mal usado em seu livro sobre Eichmann mostra que a maldade extrema não foi executada por demônios sob a imposição de uma ideologia maléfica, mas por seres comuns, até mesmo banais. Zygmunt Bauman, ao comparar a barbárie nazista com a busca da modernidade pela eficiência, pelo planejamento e controle técnico, chega a afirmar “o Eichmann em cada um de nós”.


O “vazio de pensamento” não é a falta de conhecimento, a ausência de educação formal. Ao contrário. É precisamente através da racionalidade instrumentalizada – a “razão instrumental” conforme descreve Adorno – que a intolerância totalitária pôde ser implementada. A ciência transformada em mercadoria juntamente com o conhecimento produzido tornou-se parceira fundamental da intolerância. O ser irreflexivo não pertence a uma determinada classe social, não é exclusivo a um gênero ou a uma religião, ele se encontra democraticamente distribuído, surgindo com veemência em locais onde uma certa arrogância o julga ausente, como na comunidade acadêmica.


A ambigüidade da racionalidade pode contribuir para a emancipação do indivíduo como pode ser o instrumento de sua opressão. Sob esta perspectiva a Teoria Crítica de Adorno e dos frankfurtianos contrapõe razão instrumental e razão reflexiva. A primeira, ligada ao desenvolvimento vertiginoso das ciências naturais tornou-se a base (ou sinônimo) da nossa educação institucional. A razão reflexiva, caracterizada pelo aprofundamento de matérias filosóficas e políticas, encontra-se quase ausente (numa visão otimista) do contexto educativo, impedindo seu real objetivo emancipatório – a habilidade de alguém poder pensar, julgar e agir sob sua própria consciência e responsabilidade.


Nazismo e fascismo utilizaram a capacidade doutrinária da educação para modificar o reconhecido potencial transformador da juventude para uma espécie de anti-revolução, a perpetuação do regime opressor vigente. O ensino político tornou-se, sob estes regimes, a irreflexão, formando e incentivando o pensamento condicionado que aceita e responde a comandos prontos e pré-estabelecidos baseados no culto ao partido, ao líder e seus símbolos. O ensino histórico era arma da doutrinação, resgatando nomes, fatos e eventos de acordo com os interesses do sistema presente.


Diferente da doutrinação totalitária, a educação política para Adorno é parte da emancipação, pois, é essencial ao pensamento reflexivo – essa é a grande distinção. O totalitarismo nazista buscava no ensino político a formação de “soldados de uma idéia”. O que Adorno considera educação política é justamente o ensino emancipatório que permite a possibilidade de uma reflexão, um julgamento que analise e reflita mesmo diante da imposição de um sistema. Uma rebeldia diante do discurso único.


Vencedores e perdedores. A mentalidade hierarquizada é uma das características aqui ressaltadas do pensamento intolerante. Também ligada à irreflexão – mas não só a ela – o pensamento estratificado vê o mundo dividido em camadas. Há sempre uma ordem, uma hierarquia que deve ser mantida e respeitada – a síntese do autoritarismo. Este pensamento se caracteriza, na sua essência, pela impossibilidade de encarar as pessoas como iguais. Há sempre diferenças que motivam uma divisão natural entre os homens. A mentalidade estratificada é a essência dos modernos movimentos nacionalistas europeus, onde o “outro” é um ser metamórfico, assumindo formas distintas conforme a conveniência do momento político – mas sempre um alvo. Pode ser o imigrante ilegal, o imigrante legal, os judeus e homossexuais, enfim, de acordo com a possibilidade maior de aglutinações de ódios e preconceitos e canalização para seu potencial eleitoral, o “outro” atrai a ira provocada por frustrações pessoais e inspira, “democraticamente”, os eleitores de partidos de extrema-direita.


Ao concluir essa reflexão a cerca da intolerância, acompanhamos pelos meios de comunicação a repercussão dos grandes atentados ocorridos em Madri, no dia 11 de março de 2004. Mais um marco nesta triste rotina de intolerância que toma conta do debate político internacional. Ao mesmo tempo temos uma nova oportunidade de buscar a reversão do caminho fácil da resposta armada, da vingança rápida, da opressão de outros povos. Temos a escolha de refletir, aceitar que vivemos em um mundo cheio de contradições, onde a certeza sobre algo futuro é quase uma impossibilidade e que sistema político nenhum vai mudar isso. Nenhuma ideologia milagrosa pode atenuar o “sofrimento” de estar diante do estranho, do diferente. Só o reconhecimento, a empatia e o respeito a essa diferença, ao “outro”, pode resultar em uma considerável mudança do atual rumo. Mas este reconhecimento, a empatia e o respeito parecem tão distantes quanto a intolerância se encontra próxima.