
É
sempre possível unir um número considerável
de pessoas no amor, desde que restem outras pessoas para receberem
manifestações de sua agressividade.
FREUD
“Não
julgue com seus olhos”. Esta frase, dita na forma de um
pedido por um jovem guia afegão a um repórter
brasileiro que observava negativamente uma mulher afegã
usando sua burka , expõe, de maneira simples, um dos
mais formidáveis obstáculos da humanidade: a intolerância.
Sempre que nos colocamos diante do diferente, do “outro”,
nossa reação mais comum é exatamente julgar
com nossos olhos, com nossos valores, com nossas crenças
e com nossas leis. Tratar de um assunto como a intolerância
é impossível sem fazer um juízo de valor.
Relacionadas diretamente com conceitos ligados ao bem e ao mal,
a intolerância e a tolerância fazem parte do pensamento
humano, que projeta seus conceitos (verdadeiros, falsos, completos,
incompletos) em todas as áreas de atuação
do homem. O guia afegão pede que o repórter ocidental
aceite o costume local, que obriga as mulheres a usar pesadas
vestes cobrindo todo o corpo, o rosto inclusive. Mas como não
pensar no desconforto, na opressão sofrida por aquela
mulher afegã?
A intolerância, descrita da maneira mais geral possível,
é a desvalorização do outro. Desvalorizamos
o outro quando desprezamos – não importa o grau
do desprezo – seus costumes, seu modo de vestir, a cor
de sua pele, o desenho tatuado em sua pele, o carro que dirige
e o que não dirige, a língua que fala, as línguas
que não fala, o sotaque que teima em aparecer em cada
frase, o deus para quem dirige sua fé ou quando não
dirige a fé pra deus algum (ou ainda para vários),
o time de preferência, o esporte que pratica ou se não
pratica esporte nenhum, o jeito que usa o relógio no
pulso, o piercing posto na língua ou no nariz. Enfim,
de uma maneira ou de outra, em algum momento, todos somos intolerantes.
Lutero foi quem primeiro traduziu para o alemão o termo
tolerantia, tirado de Santo Agostinho, no sentido de “paciência”
caridosa, de sofrimento ditado pelo amor divino (caritas). O
termo paciência envolve a noção de tempo.
Temos paciência por determinado período. A paciência
não se assemelha a virtudes atemporais como o amor e
a bondade, ela acaba. Portanto, quando tratamos de intolerância,
tolerar não corresponde exatamente ao seu oposto. Para
alguns pensadores, como Humberto Eco, a intolerância é
natural no ser humano. Os valores que normalmente relacionamos
com tolerância, como bondade e respeito, são adquiridos
conforme vivemos em sociedade.
A desvalorização do “outro”, faz parte
da história humana. De toda a História humana.
A intolerância está longe de poder ser enquadrada
como uma exceção, uma patologia. Santo Agostinho
diz que a alma individual é habitada por anjos e demônios
– as duas faces da mesma moeda, distintas mas inseparáveis
no mesmo corpo. A idéia de uma sociedade onde o bem e
o mal são claramente separados faz parte da mesma ilusão
que prevê um caminho histórico da humanidade partindo
do barbarismo (o mal) à civilização (o
bem).
Ressaltar a “normalidade” da intolerância
no comportamento histórico humano não significa,
de modo algum, justificar os seus exemplos. Ao contrário,
queremos tirar destes exemplos o caráter patológico
e mostrar que são praticados, testemunhados ou têm
como vítimas não anjos e demônios –
características tão distantes de nós –
mas pessoas comuns. A idéia confortável de analisar
um exemplo clássico de barbárie, o holocausto
nazista, como obra de doentes num período insano da História
não resiste a uma análise mais apurada. Como lembra
o sociólogo Zygmunt Bauman:
O Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna
e racional, em nosso alto estágio de civilização
e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão
é um problema dessa sociedade, dessa civilização
e cultura. (BAUMAN, 1998, p.12)
A
intolerância não é apenas um fenômeno
associada diretamente a ideologias do “terror”,
como normalmente se faz com o uso de expressões como
“fanáticos”, “terroristas” e
outras, simplesmente “porque ela não é o
próprio de um sistema, de uma religião, de uma
ideologia, mas é o próprio do homem. Está
em cada um de nós, está no cerne de cada sociedade.”
(BARRET-DUCROCQ, 2000, p.263, grifo nosso). A desvinculação
entre intolerância e doutrinas fascistas, integralistas
ou totalitárias, é interessante porque mostra
o aspecto mais profundo da intolerância enraizada em cada
indivíduo e, encontra nestas formas de governo, todas
as possibilidades políticas de deixarem sua prisão
individual e se coletivizar.
Para Leila Shahid, delegada geral da Palestina na França
A intolerância vem da ignorância, da ignorância
quer vem do medo, o medo que vem da cegueira. A tolerância
vem do conhecimento; o conhecimento leva à aceitação
do outro. A intolerância vem de uma forma da apropriação
total da verdade. A tolerância vem da aceitação
do erro e da legitimação do erro. (SHAHID apud
BARRET-DUCROCQ, 2000, p.163)
Se
a tolerância vem do conhecimento, da razão, como
explicar a parceria contínua entre os intelectuais e
a intolerância? O nazismo, que nasceu e se desenvolveu
no centro de um dos maiores pólos culturais da humanidade,
contou com o apoio de grandes expoentes do conhecimento da época.
Não é só o exemplo alemão. O aumento
significativo na alfabetização da população
mundial no último século, o crescimento da formação
universitária, da pós-graduação,
enfim, do ensino, nada disso resultou num perceptível
aumento da tolerância global, muito ao contrário.
Para a filósofa política alemã Hannah Arendt
a morte de aproximadamente seis milhões de judeus pelos
alemães na Segunda Guerra é o exemplo definitivo
da capacidade humana de fazer o mal. Quando foi a Jerusalém
acompanhar, como enviada da revista New Yorker, o julgamento
do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, estava convencida
de encontrar no réu a personificação do
mal. O homem responsável pela coordenação
dos campos de concentração, Eichmann, só
poderia ser uma espécie de demônio. No entanto,
ao encontrar Adolf Eichmann, em 1961, e acompanhar o desenrolar
do seu julgamento, Arendt descreve o até então
homem-demônio como uma pessoa comum, um burocrata cuja
característica mais marcante é um “vazio
de pensamento”.
O demônio por Arendt procurado parece nunca ter existido.
Eichmann, um dos responsáveis pela morte de seis milhões
de pessoas, não era um ideólogo nazista particularmente
brilhante, nem mesmo um fanático político, era
apenas uma pessoa comum, inclusive, de acordo com os depoimentos
em seu julgamento, um zeloso pai de família. Hannah Arendt
deparava-se com a contradição: o seu exemplo de
mal radical, os campos de concentração, poderiam
ter sido criados e controlados por pessoas comuns? Onde estavam
os demônios?
II
Intolerância
é a convicção de que os outros não
pensam, não sentem, não reagem como nós
(qualquer que seja esse “nós”).
HÉRITIER
“Não julgue com seus olhos.” A frase sintetiza
de certa forma a complexidade da relação com o
“outro”. Um relacionamento necessário e,
no entanto, uma dificuldade permanente. A convivência
do “eu” com o “outro” pode resultar
– e resulta normalmente – em pequenas brigas, bate-bocas
e discussões comuns do cotidiano. A tensão entre
subjetividade e a necessidade de convivência pode também
resultar nos exemplos mais dramáticos de barbárie
de nossa história.
Uma idéia ou pensamento sedimentado no senso comum sempre
nos pareceu extremamente míope, o discurso tão
comum de “civilização” em oposição
à “barbárie”, que adota conceitos
históricos para traçar uma linearidade darwinista
que caminha do mundo primitivo (bárbaro) chegando à
moderna civilização (a ocidental, acima do equador),
tendo como ponto final uma sociedade evoluída –
habitada por seres inteligentes, eficientes e incapazes de atos
violentos. No entanto, o último século foi o de
Dresden, Hiroxima, Nagasaki e Ruanda; da “Solução
Final”, e da limpeza étnica. O progresso tecnológico
que inspirou o otimismo dos séculos XIX e XX também
representou a multiplicação dos efeitos da maldade.
Foi o século do progresso tecnológico, mas foi
também o século da intolerância.
O século que começa tem seu início marcado
pela data 11 de setembro de 2001 e, novamente, a intolerância
parece ser sua principal parceira. Se o holocausto do povo judeu
foi exemplo da intolerância humana no passado, os novos
tempos têm na violência dos judeus israelenses contra
os palestinos a comprovação de que nosso “rumo
evolutivo” parece circular em torno de barbáries.
Emblematicamente, a imagem de palestinos exibindo tatuagens
numeradas em seus braços, feitas para “controle
de prisioneiros” pelo exército de Israel, é
significativa da falência da esperança de um verdadeiro
aprendizado histórico que nos livre dos erros cometidos.
Também emblemático, o ataque da maior força
militar do planeta, com sua incomparável tecnologia de
guerra, contra uma nação semidestruída
por décadas de guerras e guerrilhas, presa a um tempo
descrito como próximo da Idade Média (neste caso,
o Afeganistão), revela o enorme poder do pensamento maniqueísta
na implementação da intolerância. A “batalha
do bem contra o mal”, ou o brado “você está
com nós ou contra nós” reforçam a
presença de características que possibilitaram
as destruições passadas e que agora se apresentam
como perspectiva do nosso futuro.
O “vazio de pensamento” – a irreflexão,
a mentalidade hierarquizada, o individualismo egoísta
com sua competitividade degenerada, para autores como Arendt
e Theodor Adorno formam a essência da personalidade autoritária
e que, coletivamente, possibilitaram a ascensão do totalitarismo.
Mas tais características não são exclusivas
a determinado sistema político, a uma ideologia. São
parte do pensamento individual e encontram cada vez mais espaço
na civilizada modernidade contemporânea. São características
pessoais que não só são encontradas atualmente,
como talvez com muito mais força.
A irreflexão, o “vazio de pensamento” como
chamou Hannah Arendt em seu diagnóstico de Eichmann,
condena nossa capacidade de comparação, permitindo
às ideologias transmitir seu discurso único como
lei universal. A impossibilidade de encarar a complexidade faz
com que a mente irreflexiva procure idéias claras, pensamentos
prontos. Frases feitas e clichês são sua forma
de comunicação, a maneira de conseguir se expressar
ao mundo exterior e a forma que encontra para falar a si mesmo
dando motivação e ânimo em situações
difíceis . Arendt, em Origens do Totalitarismo, descreve
a “maldade” totalitária comparando-a ao “mal
radical” – a perversão do coração
– de Kant. Ao acompanhar o julgamento de Eichmann, a autora
parece reavaliar sua posição. O subtítulo
A Banalidade do Mal usado em seu livro sobre Eichmann mostra
que a maldade extrema não foi executada por demônios
sob a imposição de uma ideologia maléfica,
mas por seres comuns, até mesmo banais. Zygmunt Bauman,
ao comparar a barbárie nazista com a busca da modernidade
pela eficiência, pelo planejamento e controle técnico,
chega a afirmar “o Eichmann em cada um de nós”.
O “vazio de pensamento” não é a falta
de conhecimento, a ausência de educação
formal. Ao contrário. É precisamente através
da racionalidade instrumentalizada – a “razão
instrumental” conforme descreve Adorno – que a intolerância
totalitária pôde ser implementada. A ciência
transformada em mercadoria juntamente com o conhecimento produzido
tornou-se parceira fundamental da intolerância. O ser
irreflexivo não pertence a uma determinada classe social,
não é exclusivo a um gênero ou a uma religião,
ele se encontra democraticamente distribuído, surgindo
com veemência em locais onde uma certa arrogância
o julga ausente, como na comunidade acadêmica.
A ambigüidade da racionalidade pode contribuir para a emancipação
do indivíduo como pode ser o instrumento de sua opressão.
Sob esta perspectiva a Teoria Crítica de Adorno e dos
frankfurtianos contrapõe razão instrumental e
razão reflexiva. A primeira, ligada ao desenvolvimento
vertiginoso das ciências naturais tornou-se a base (ou
sinônimo) da nossa educação institucional.
A razão reflexiva, caracterizada pelo aprofundamento
de matérias filosóficas e políticas, encontra-se
quase ausente (numa visão otimista) do contexto educativo,
impedindo seu real objetivo emancipatório – a habilidade
de alguém poder pensar, julgar e agir sob sua própria
consciência e responsabilidade.
Nazismo e fascismo utilizaram a capacidade doutrinária
da educação para modificar o reconhecido potencial
transformador da juventude para uma espécie de anti-revolução,
a perpetuação do regime opressor vigente. O ensino
político tornou-se, sob estes regimes, a irreflexão,
formando e incentivando o pensamento condicionado que aceita
e responde a comandos prontos e pré-estabelecidos baseados
no culto ao partido, ao líder e seus símbolos.
O ensino histórico era arma da doutrinação,
resgatando nomes, fatos e eventos de acordo com os interesses
do sistema presente.
Diferente da doutrinação totalitária, a
educação política para Adorno é
parte da emancipação, pois, é essencial
ao pensamento reflexivo – essa é a grande distinção.
O totalitarismo nazista buscava no ensino político a
formação de “soldados de uma idéia”.
O que Adorno considera educação política
é justamente o ensino emancipatório que permite
a possibilidade de uma reflexão, um julgamento que analise
e reflita mesmo diante da imposição de um sistema.
Uma rebeldia diante do discurso único.
Vencedores e perdedores. A mentalidade hierarquizada é
uma das características aqui ressaltadas do pensamento
intolerante. Também ligada à irreflexão
– mas não só a ela – o pensamento
estratificado vê o mundo dividido em camadas. Há
sempre uma ordem, uma hierarquia que deve ser mantida e respeitada
– a síntese do autoritarismo. Este pensamento se
caracteriza, na sua essência, pela impossibilidade de
encarar as pessoas como iguais. Há sempre diferenças
que motivam uma divisão natural entre os homens. A mentalidade
estratificada é a essência dos modernos movimentos
nacionalistas europeus, onde o “outro” é
um ser metamórfico, assumindo formas distintas conforme
a conveniência do momento político – mas
sempre um alvo. Pode ser o imigrante ilegal, o imigrante legal,
os judeus e homossexuais, enfim, de acordo com a possibilidade
maior de aglutinações de ódios e preconceitos
e canalização para seu potencial eleitoral, o
“outro” atrai a ira provocada por frustrações
pessoais e inspira, “democraticamente”, os eleitores
de partidos de extrema-direita.
Ao concluir essa reflexão a cerca da intolerância,
acompanhamos pelos meios de comunicação a repercussão
dos grandes atentados ocorridos em Madri, no dia 11 de março
de 2004. Mais um marco nesta triste rotina de intolerância
que toma conta do debate político internacional. Ao mesmo
tempo temos uma nova oportunidade de buscar a reversão
do caminho fácil da resposta armada, da vingança
rápida, da opressão de outros povos. Temos a escolha
de refletir, aceitar que vivemos em um mundo cheio de contradições,
onde a certeza sobre algo futuro é quase uma impossibilidade
e que sistema político nenhum vai mudar isso. Nenhuma
ideologia milagrosa pode atenuar o “sofrimento”
de estar diante do estranho, do diferente. Só o reconhecimento,
a empatia e o respeito a essa diferença, ao “outro”,
pode resultar em uma considerável mudança do atual
rumo. Mas este reconhecimento, a empatia e o respeito parecem
tão distantes quanto a intolerância se encontra
próxima.