Mestre
Pastinha "Cada
um é cada um, ninguém luta como eu..." (*1) |
por
Rui Takeguma |
Matéria
Publicada na revista CORDÃO BRANCO nº 4 |
Foto:
David Drew Zing |
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1967: Roberto Freire entrevista Mestre Pastinha em Salvador para a revista
Realidade |
Vicente
Ferreira Pastinha Nasceu em 5 de abril de 1889, em Salvador - BA. Filho de José
Señor Pastinha (descendentes de espanhóis) e Raimunda dos Santos (negra de Santo
Amaro da Purificação). Aos dez anos de idade (alguns falam oito anos), para se
defender de um menino brigão da sua rua, começa o aprendizado da arte da Capoeira
com o velho Mestre Benedito.
Com 12 anos entra na Escola de Aprendizes da Marinha (início de 1902), no Largo
da Conceição da Praia, e lá dentro ensina capoeira aos seus colegas até 1909,
em 1910 pediu baixa. Depois prosseguiu lecionando até 1912 na rua Santa Izabel,
onde ensinou Raymundo Aberrê.
Era
uma época de forte perseguição aos capoeiristas, no Rio de Janeiro havia movimentos
de transformar a capoeira em 'ginástica nacional', mas na Bahia foi só com as
lutas de M. Bimba que se conseguiu a aceitação da capoeira como 'esporte nacional'.
No período de 1913 a 1941, M. Pastinha se afasta da capoeiragem devido às desordens
da época.
No
período de 1910 a 1920, os jogos de sorte eram livres. E segundo M. Pastinha:
"Passei a tomar conta de casa de jogo. Para manter a ordem. Mas, mesmo sendo capoeirista,
eu não descuidava de um facãozinho de doze polegadas e de dois cortes que sempre
trazia comigo. Jogador profissional daquele tempo andava sempre armado. Assim
quem estava no meio deles sem arma nenhuma bancava o besta. Vi muita arruaça,
algum sangue, mas não gosto de contar casos de briga minha. Bem, mas só trabalhava
quando minha arte negava sustento. Além do jogo, trabalhei de engraxate, vendia
gazeta, fiz garimpo, ajudei a construir o porto de Salvador. Tudo passageiro,
sempre quis viver de minha arte. Minha arte é ser pintor, ser artista."(*2)
Se
em 1934, Getúlio Vargas extingue o decreto que proibia a capoeira, por outro lado
ele obriga que seja realizado em recintos fechados e fora das ruas (*3). Assim
os angoleiros continuavam na marginalidade, enquanto M. Bimba possuía academia.
Em 23 de fevereiro de 1941, M. Pastinha é levado pelo seu antigo aluno Aberrê
para a roda da Ladeira da Pedra, fim da Liberdade, no bairro da Gingibirra, onde
se encontravam grandes mestres da época. Quem era responsável pela capoeira, era
o guarda civil Amorzinho, que entregou a roda e a responsabilidade a Mestre Pastinha
de retomar a capoeira angola. Participavam Amorzinho, Aberrê, Antonio Maré, Daniel
Noronha, Onça Preta, Zeir, Geraldo Chapeleiro, Livino Diogo, Olampio, Vitor H.D.,
Alemão filho de Maré, Domingo de Maganhães, Pinião José Chibata, Beraldo Izaque
dos Santos e Ricardo Batista dos Santos; e M. Pastinha escolheu um nome: Centro
Esportivo de Capoeira Angola.
Quando
Amorzinho morreu, o centro ficou sem finalidade, pois foi abandonado por todos
os Mestres, mas por insistência e esforço de M. Pastinha, o CECA sempre recomeçou
e prosseguiu. Em fevereiro de 1944, nova reorganização: e em 23 de março de 1944
vão para o Centro Operário da Bahia. Em 1949, num terreno da Fábrica de sabonete
Sicool no Bigode, foram feitas as primeiras camisetas em preto e amarelo, inspirado
num time de futebol tradicional, muito querido das classes populares de Salvador,
o Ypiranga. (inclusive tentaram mudar as cores para branco e vermelho, mas M.
Pastinha não aceitou). M. Pastinha após avaliar o jogo de cada aluno, fazia um
desenho na sua camiseta com movimentos característicos de cada um.
Após
muita luta, é oficializado o centro de M. Pastinha, vejamos o Artigo 1º do Capítulo
I:
"O Centro
Esportivo de Capoeira Angola, fundado à 1º de Outubro de 1952, com sede na cidade
do Salvador, Estado da Bahia, é constituído de número limitado de sócios, tem
a finalidade de ensinar, difundir e desenvolver teórica e praticamente a capoeira
de estilo, genuinamente "ANGOLA" que nos foi legada pelos primitivos africanos
aportados aqui na Bahia de Todos os Santos."
Assim
foi possível resgatar e manter essa tradicional arte da Angola, apesar do desenvolvimento
das capoeiras e a cooptação ideológica feita pelos donos do poder; transformando
a arte dos negros marginais que lutam por sua sobrevivência, em esporte branco
e educação física para uma sociedade onde permanece a desigualdade social. (*3)
Mestre Pastinha
é considerado com toda razão o mais importante capoeirista que já houve. Devido
a conflitos criados por seus alunos com alunos de M. Bimba tenta-se desfigurar
essa imagem. (*4) O primeiro encontro entre M. Pastinha e M. Bimba, foi pacífico
e respeitoso, aconteceu em 5 de julho de 1957 na Lagoa de Abaeté, numa demonstração
do Bahiate. O CECA apresentou a capoeira angola no Rio de Janeiro, São Paulo,
Rio Grande do Sul, Curitiba, Minas Gerais e Recife.
Em
1964 publica o livro "Capoeira Angola", onde Jorge Amado escreve "...mestre da
Capoeira de Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do
povo com toda sua picardia, é um dos ilustres, um de seus obas, de seus chefes.
É o primeiro em sua arte; senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência
fraternal. Em sua escola no Pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira,
da mais real e da melhor..." Em 1966, M. Pastinha integrou a delegação brasileira
no Premier Festival Internacional dês Arts Nègres, de Dakar, Senegal na África.
Se por um lado
se destaca como o principal articulador da capoeira angola junto aos poderes públicos
de sua época, obtendo apoio dos órgãos de turismo e outras instituições municipais
e estaduais. Logo depois de usado é enganado e abandonado: em maio de 1955, o
CECA saiu de Brotas e se instalou no Largo do pelourinho nº19, quando quase cego
em 1971, foi retirado do espaço para reformas, sendo que voltaria quando estivesse
pronto. O prédio foi desapropriado e doado ao Patrimônio Histórico da Fundação
do Pelourinho, que vendeu ao SENAC, onde construíram um restaurante. M. Pastinha
entra em depressão, em 1979 sofre um derrame cerebral, e após um ano de internação
em hospital público foi enviado para o Abrigo D. Pedro II. Vindo a falecer em
13 de novembro de 1981, com 92 anos. Cego, na miséria e quase esquecido, faz sua
'passagem' depois de contribuir de forma definitiva para a história e cultura
brasileira.
Mestre
Pastinha como poeta foi um grande visionário, seus dois meninos Cobra Mansa e
Gavião, respectivamente Mestres João Pequeno e João Grande, são hoje, fundamentais
para a capoeira. Mestre João Pequeno é o mais importante capoeirista vivo e em
atividade, mora em Salvador. Mestre João Grande mora a quase doze anos em Nova
York e é um dos capoeiristas mais premiados: em 1994 com título Honoris-causa
pela faculdade de Upsala College de Nova Jérsei (EUA) e ano passado, recebeu 10
mil dólares do Prêmio da National Heritage Fellowships (Comunidade do Patrimônio
Nacional) na Casa Branca, Washington (EUA).
Mestre
Pastinha tinha escrito: "tenho vários treneos feitos por mim, e estou fazendo
os mestres de amanhã"(*5) (grifo meu).
Rui
Takeguma, somaterapeuta, anarquista, fotógrafo e professor de capoeira angola
do Iê-SP, pertencente ao Iê-nacional. São Paulo, 30 de janeiro de 2002 ruitakeguma@uol.com.br
http://ie.cal.vilabol.uol.com.br
Observações:
*1 - discordo
das datas de nascimento e morte do mestre, publicadas na revista Cordão Branco
nº 2, matéria de Frederico Abreu.
*2
- depoimento para Roberto Freire, publicado na revista REALIDADE, fevereiro 1967.
*3 - mais detalhes
em "Capoeira Qual é a Sua - Angola, Regional ou Contemporânea" de Rui Takeguma,
janeiro de 2002, a ser publicado ou encontrado na Internet (http://ie.angola.pagina.de).
*4 - veja as
informações maldosas e infundadas no livro "Capoeira Angola Ensaio Sócio-Etnográfico"
de Waldeloir Rego, pesquisador de Candomblé, e admirador de m. Bimba.
*5
- "A Herança de Pastinha" por Decânio, 1996 Coleção São Salomão 3.

O
desenho foi publicado em "Manuscritos e desenhos de Mestre Pastinha" editado por
Decânio, coleção São Salomão.